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terça-feira, 28 de abril de 2009

Hector Berlioz: "A Infância de Cristo"

O oratório A Infância de Cristo, do compositor francês Hector Berlioz, completa o ciclo de concertos de cunho religioso da Orquestra Sinfônica e do Coro do Theatro Municipal na igreja da Candelária. O concerto será realizado nos dias 29 e 30 de abril, sempre às 18:30h, e terá como solistas Celine Imbert (Maria), Eduardo Amir (José) Licio Bruno (Herodes), Carlos Eduardo Marcos (Polidoro). Fernando Portari fará a narração e a regência estará a cargo do maestro Lutero Rodrigues, especialmente convidado. Destacam-se também os músicos Marcelo Bonfim (flauta), Sofia Ceccato (flauta) e Cristina Braga (harpa), que formarão um trio ouvido em determinado ponto da obra.
Publicado por Thyago Mathias

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Cleopatra: a mulher, o mito e a tumba

Stacy Schiff, do New York Times, escreveu uma matéria que, apesar de longo, é interessante, engraçada e instrutiva sobre o mito que pode ser desvendado se for confirmada a descoberta da tumba de Cleopatra, rainha do Egito. Segue o texto, na tradução de Eloise De Vylder, para o UOL:

O que é necessário para se tornar um mito? Se você for mulher, a fórmula é simples. Suas melhores apostas são os três Ds: delusão (Joana D'Arc), deficiência (Helen Keller), destruição (Sylvia Plath).

Você pode conseguir pontos extras com uma morte cruel, súbita ou surpreendente, como demonstram Evita, Amelia ou Diana. No topo da lista das personalidades mais autodestrutivas de todos os tempos vem, é claro, Cleópatra VII, cuja busca pelo túmulo começará em breve, num monte egípcio a oeste de Alexandria.

Cleópatra morreu há 2.039 anos, com 39 anos de idade. Antes de se transformar em máquina de caça-níqueis, videogame, marca de cigarro, camisinha, caricatura, clichê ou sinônimo de Elizabeth Taylor, antes de reencarnar nas obras de Shakespeare, Dryden ou Shaw, ela foi uma rainha egípcia de verdade. Governou por 21 anos, a maior parte do tempo sozinha, o que quer dizer que ela era essencialmente um rei feminino, uma incongruência que provoca o tipo de reação antes reservada aos homens travestidos.

Do ponto de vista dela, não havia nada de estranho com o arranjo.Cleópatra certamente tinha mais modelos femininos poderosos do que qualquer outra mulher na história. Elas não eram exatamente estandartes da virtude, mas articuladoras políticas argutas. Suas antecessoras foram as rainhas macedônias rancorosas e intrusivas que rotineiramente envenenavam irmãos e enviavam exércitos contra seus filhos. A tataravó de Cleópatra declarou uma guerra civil contra seus pais, e outra contra seus filhos. Essas mulheres foram criadas para governar.

Cleópatra teve um filho com Júlio César. Depois de sua morte, ela teve mais três - dois filhos e uma filha - com seu protegido, Marco Antônio. A maternidade confirmou seu poder sobre o trono. Ela foi em parte o reverso de Henrique 8º; ela também precisava de um herdeiro homem, mas teve mais sucesso ao consegui-lo. É quase certo que Marco Antônio e Júlio César representam toda a extensão da história sexual de Cleópatra. Ela era autoconfiante, engenhosa e destemida, e para sua época e lugar era extremamente bem comportada. Tendo herdado um país em declínio, ela o governou com habilidade num período de seca, fome, peste e guerra.

Entretanto, o que pode ser dito de bom de uma mulher que dormia com dois dos homens mais poderosos de sua época? Os pais dos filhos de Cleópatra eram homens de um apetite sexual voraz e notório. Cleópatra é lembrada na história como uma sedutora implacável. Ela é a garota má original, uma Monica Lewinsky do mundo antigo. E tudo porque ela aparece em uma das mais perigosas intercessões da história, a que existe entre as mulheres e o poder.

Ela reina eternamente sobre a disputa entre promiscuidade e virilidade, a floresta de conotações que separam a "aventureira" do "aventureiro". No mundo antigo, também, as mulheres faziam intriga enquanto os homens faziam estratégia. E o poder feminino se afirmava com regularidade, de uma forma mais velada do que na época grega. Nos contratos de casamento do primeiro século antes de Cristo, a mulher prometia ser fiel e dedicada - e não colocar poções de amor na comida do marido. As mulheres inteligentes, já alertava Eurípedes, são mulheres perigosas.

Assumindo que a dupla medida sobreviveu pelo menos 2 mil anos desde Cleópatra, o que estamos fazendo hoje num monte egípcio, sob as ruínas do templo de Taposiris Magna? "Esta pode ser a descoberta mais importante do século 21", diz o diretor do patrimônio egípcio, Zahi Hawass, sobre a escavação. Com certeza será um alívio riscar Cleópatra da lista de coisas que perdemos, ou que acreditamos ter perdido: Atlântida, Jamestown, uma tribo inteira de Israel, boas maneiras, Jimmy Hoffa.

Se encontrarmos o túmulo de Cleópatra - e certamente encontraremos algo relevante, uma vez que Hawass parece determinado a fazer uma descoberta à altura de Tutancâmon, em 1992 - poderemos até solucionar o mistério da morte de Cleópatra. Com certeza não haverá uma víbora preservada ao lado de sua múmia. Isso foi provavelmente um acréscimo à história. Não é difícil de imaginar o que alguém quer dizer quando junta uma mulher com uma cobra.

Entretanto, talvez possamos determinar se Cleópatra cometeu suicídio ou foi de fato assassinada. Enquanto prisioneira, ela era um constrangimento para os romanos, que não sabiam como triunfar com alarde, e com certa compaixão, sobre uma mulher. Pode ser que eles tenham-na matado antes.

Em grande parte, foram os inimigos de Cleópatra que garantiram nosso fascínio em relação a ela. Foi a guerra civil de Roma que assegurou a sua imortalidade. E foi Otaviano, seu inimigo e futuro Augusto César, que estabeleceu sua aura de femme fatale. Ele também pode ter sido o responsável pela versão da Classic Comics de uma rainha pervertida e ambígua, abrindo o caminho para Joseph L. Mankiewicz. Mas nesse processo, ele superdimensionou Cleópatra a proporções hiperbólicas - para fazer o mesmo com sua própria vitória. A história de Cleópatra difere da maioria das histórias sobre mulheres, porque os homens que a contam, por seus próprios motivos, engrandecem e não diminuem o papel dela.

Otaviano quase não precisava aumentar a história. Ela era uma mulher da realeza que por fim, pode-se dizer, morreu por amor. As tragédias românticas não ficam melhores do que isso, o que explica porque Shakespeare teve dificuldade em melhorar Plutarco. E Cleópatra coloca um rótulo antigo em algo que sempre soubemos existir: a sexualidade feminina exacerbada. Eis novamente aquela poção do amor.

Não é que ela tenha batido a cabeça num teto de vidro, mas tropeçou no alçapão de entrada, na armadilha que diminui as mulheres através da sexualidade. Como escreveu Margaret Atwood sobre Jezebel, "a bagagem sexual que acumulada em torno dessa figura é impressionante, uma vez que ela não fez nada nem remotamente sexual na história original, exceto usar maquiagem". No caso de Cleópatra, a ausência total de verdade assegurou o mito. Quando os fatos são escassos, os mitos invadem a história, como erva daninha.

Seria um alívio resolver de uma vez por todas a dúvida excruciante sobre a beleza de Cleópatra, apesar de a resposta não afetar praticamente nada. Mesmo que ela tivesse todas as armas estéticas em seu arsenal, já sabemos quais ela usou com tanta destreza. "Era impossível conversar com ela sem ser imediatamente cativado", diz uma de nossas duas melhores fontes. Sua voz era aveludada; sua conversa estimulante; seus poderes de persuasão inigualáveis; sua presença um evento, diz o outro. Provavelmente nenhum desses atributos poderá ser extraído da rocha egípcia para fazer uma turnê internacional.

Cleópatra serviu como uma arma eficiente que Otaviano usou para unir-se a Marco Antônio, numa guerra civil particularmente violenta.

Foi sua fraqueza pela estrangeira sedutora que corrompeu e arruinou Antônio. Descobriremos que ele dividiu o túmulo com Cleópatra, conforme dizem os relatos antigos? Afinal, foi o pedido - real ou inventado por Otaviano - de ser enterrado ao lado dela que custou Roma a Marco Antônio. Dizem que Cleópatra o enterrou com suas próprias mãos, febrilmente, com suntuosidade e honrarias. (Ela tentou deixar de comer até a morte na época.) Entretanto, a busca pelo túmulo dele não é assunto para as manchetes. Marco Antonio é um tanto figurante da história alheia.

A busca é, além disso, atual. A classicista de Cambridge Mary Beard diz que durante anos o Santo Graal dos arqueólogos foi o túmulo (ainda perdido) de Alexandre, o Grande. Mas não estamos mais no mercado em busca de um homem branco imperialista. Apesar de essa escavação não solucionar nenhuma das grandes questões, ela poderia, diz Beard, possivelmente oferecer pistas sobre a etnia de Cleópatra. Ela era uma macedônia pura, ou tinha descendência africana? (Minha aposta é de que ela era macedônia com, talvez, um pouco de sangue persa.) De fato a questão da ancestralidade mista parece ser o assunto da vez. Há um mês, cientistas britânicos sugeriram que haviam solucionado definitivamente a questão, produzindo simulações computadorizadas da irmã de Cleópatra com base num crânio encontrado na Turquia.

Aqui entramos num exercício familiar: Cleópatra também passou sua vida tentando reconciliar Ocidente e Oriente, com tão pouco sucesso quanto conseguimos hoje. Um romano não conseguia pensar além de um Ocidente civilizado e virtuoso e um Oriente opulente e decadente. Ele era incapaz de vislumbrar além do exótico e do erótico. O Oriente era, por definição, atraente e voluptuoso - como uma mulher, de fato. Pense na dança árabe do maravilhoso segundo ato do balé "Quebra-Nozes" de Balanchine. Ela é uma presença ardente, intoxicante, muito potente para qualquer parceiro, sem nenhuma importância para a história, que sempre suspeitei estar lá somente para acordar os pais da platéia.

É claro que temos intenção de solucionar os enigmas. Ansiamos pela caixa preta da história. De certa forma, também queremos a confirmação de que vivemos no mesmo planeta que a lenda que inspirou dois milênios de prosa ardente, de que aquilo que parece mito foi história verdadeira. Temos sede de certezas. Queremos ver e tocar o mito em todo o seu cintilante esplendor, esquecendo-nos de que ao fazer isso ele volta - pelo toque de Midas ao reverso - para a escória da história. Se encontrarmos Cleópatra, e se pudermos lhe dar um rosto, prometemos desistir de Elizabeth Taylor de uma vez por todas?

Escolheremos a mulher ou o mito? Será que algo se perderá quando ela for encontrada? Otaviano tinha seus planos, nós temos os nossos.

Não importa o que as tumbas de Taposiris nos reservam, é pouco provável que ofereçam uma resposta para a misteriosa questão das mulheres e o poder. Para isso, teremos de escavar em outros lugares. E pode levar um pouco mais de tempo.
Publicado por Thyago Mathias

domingo, 26 de abril de 2009

Números da redução de circulação de jornais impressos

Com informações do portal Comunique-se

Números do Audit Bureau os Circulation, IVC dos EUA, no último semestre (até março), mostra queda da circulação de 7% nas vendas diárias comparadas com o mesmo período de 2008. Um recorde histórico. Aos domingos a queda foi de 5,3%, agravando a queda nos dias de semana. O USA Today, o de maior circulação com 2,1 milhões de exemplares, acompanhou a média caindo 7,5%.

No Brasil, a circulação média no primeiro trimestre do ano 2000 e de 2009 também sofreu variações negativas. Os números são:

  • Folha de S. Paulo 2000: 429.476 2009: 298.352 - Variação -30%
  • O Globo 2000: 334.098 2009: 260.869 - Variação -22%
  • O Estado de S. Paulo 2000: 391.023 2009: 217.414. - Variação -44%
  • Zero Hora 2000: 186.471 2009: 184.893 - Variação -1%
Publicado por Thyago Mathias

Será o fim da Doutrina Monroe?

A Doutrina Monroe (América para os Americanos) foi apresentada pelo presidente dos EUA James Monroe em sua mensagem ao Congresso em 2 de dezembro de 1823: "Julgamos propícia esta ocasião para afirmar, como um princípio que afeta os direitos e interesses dos Estados Unidos, que os continentes americanos, em virtude da condição livre e independente que adquiriram, não podem mais ser considerados, como suscetíveis de colonização por nenhuma potência europeia”. Em artigo publicado no La Nacion no dia 22 de abril, Juan Gabriel Tokatlian, professor de relações internacionais da Universidade de San Andres (Argentina), dá outra versão à recente Cúpula das Américas com a presença de Obama:

"Com sua atitude em Trinidad e Tobago, Obama confirma a emancipação da América Latina e com isso acentua o ocaso da Doutrina Monroe. É notório na AL o avanço da China. Rússia retorna à região, ao tempo que Iran, Índia e África Do Sul se projetam ativamente na região. Os cinco - Pequim, Moscou, Teerã, Pretoria e Nova Delhi - procuram reforçar os laços em materias, energética e alimentar (áreas estratégicas de recursos vitais)".


"Ao interesse na região destes atores, some-se a variedade de atores não governamentais (partidos políticos, organizações civis de diversas índoles, movimentos antiglobalização, comunidades religiosas, indígenas, grupos transnacionais criminais, entre outros) com AL. Cresceram os questionamentos frontais aos EUA e surgiram governos manifestamente críticos à Washington".


"Nesse contexto, Barack Obama não parece inclinado em reconstruir à força a Doutrina Monroe. Isto significa que os âmbitos e assuntos continentais devem ser vistos como um sistema múltiplo e complexo. As instâncias coletivas (OEA, BID) deveriam fortalecer-se, assim como o Grupo do Rio, um potencial organismo regional para tratar da questão das drogas, e o Conselho Sulamericano de Defesa, e até o Banco do Sul, como eventual banco de desenvolvimento.


"Assistimos a um momento raro nas relações interamericanas: poucas vezes se apresentaram tantas condições para que a América Latina reduza a subordinação aos EUA com concordância desse. Nesse sentido, a V Cúpula das Américas significa o fim de uma época e o início de uma nova era nas relações interamericanas".
Publicado por Thyago Mathias

Clipe de domingo: Lugaucho pelo Grupo Ang3l3s

Um clipe bastante tosco que foi comentado durante a última semana volta neste domingo.

A homenagem do Grupo Ang3l3s ao presidente paraguaio Fernando Lugo cai na piada mais fácil, mas que não perde a graça: Por que Lugo fez tantos filhos? Ora, porque sendo bispo católico ele seria o primeiro a se posicionar contra o uso da camisinha...

Enfim, Lugaucho, como diz a música, tiene corazón, pero no puso el condón. Vale lembrar que, em tempos de separação entre Igreja e Estado, a recusa em eleger um bispo afastado do exercício da função já evitaria meia-polêmica...

Publicado por Thyago Mathias

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Santa Sé assina acordo de entendimento com Liga Árabe

Da agência Zenit

A Santa Sé e a Liga de Estados Árabes assinaram um Memorandum de Entendimento esta manhã em Roma, segundo divulgou a Secretaria de Estado Vaticana. Este acordo pretende, entre outras coisas, favorecer iniciativas de diálogo inter-religioso.

Na assinatura do documento, que entrou em vigor hoje, estiveram presentes duas delegações, encabeçadas pelo cardeal Tarcisio Bertone, Secretário de Estado, e por Walid al Gargani, chefe da Missão da Liga Árabe na Santa Sé. O documento foi assinado pelo arcebispo Dominique Mamberti, secretário para as Relações entre os Estados, e por Amr Moussa, secretário da Liga.

Este acordo, segundo afirma o comunicado oficial, «consolida ainda mais os vínculos de colaboração existentes entre a Santa Sé e a Liga Árabe, especialmente a nível político e cultural, a favor da paz, da segurança e da estabilidade regional e internacional».
Também, o acordo prevê uma maior atenção, por ambas as partes, «às iniciativas de diálogo inter-religioso».


A Liga Árabe, com sede no Cairo, foi fundada em 1945 para defender os interesses das nações árabes. Fazem parte dela 22 países, entre eles o Egito, Jordânia, Iraque, Líbano, Arábia Saudita, Iêmen, Síria, Sudão, Marrocos, Tunísia, Kuwait e Argélia.

A Santa Sé mantém um delegado apostólico na Liga desde 2000, por decisão do Papa João Paulo II. O Papa nomeou como tal, em 2007, o arcebispo Michael Louis Fitzgerald, que é também núncio no Egito e que anteriormente foi presidente do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-Religioso.
Publicado por Thyago Mathias

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Alma Guillermoprieto: "O jornalismo na América Latina hoje é exercido com falta de imaginação"

Com informações do Knight Center for Journalism

Para a jornalista mexicana Alma Guillermoprieto, colaboradora de publicações como a revista New Yorker, o jornalismo na América Latina, hoje, é exercido com pouco rigor e falta de imaginação. Foi o que disse em uma entrevista ao portal Milenio, em que confessou que todos os seus artigos "guardam certo veneno aos políticos, pois creio que a falta de decência na política latino-americana é uma tragédia".

Sobre sua maneira de se relacionar com os entrevistados, Guillermoprieto afirmou: "O grande segredo de um repórter é confiar no fato de que todos queremos contar nossa história. Todos. Todos queremos ser compreendidos. Ouvidos. E os repórteres, na maioria das vezes, não escutam. Eles estão em busca das aspas e não da verdadeira história por trás delas. Porém, se [o jornalista] vai em busca da verdadeira história, o entrevistado percebe isso e agradece".

Sobre o jornalismo latino-americano de hoje, Alma Guillermoprieto comenta: "Os jornais na América Latina, me dá pena dizer, não são bons. Há raríssimas exceções. Os jovens repórteres, muitas vezes brilhantes, se queixam de seus editores, do salário... com toda a razão. Mas também não são incrivelmente imaginativos na hora de propôr textos e abordagens para a realidade. A realidade latino-americana é infinitamente rica, é mágica e incrível. Falta ao jornalismo latino-americano descobrir como transmitir isso. O mundo ainda precisa ser descoberto, e tudo precisa ser escrito. Mas [os jornalistas] não se comprometem plenamente com isso. Os jornais da América Latina também precisam abordar todos os dias temas que possam mudar um país ou uma cidade".

Publicada por Thyago Mathias

terça-feira, 21 de abril de 2009

Cesar Maia e o "Muro da Miséria"

Há pelo menos cinco edições de seu ex-Blog, o ex-prefeito do Rio Cesar Maia segue criticando a iniciativa do Governo do Estado, com apoio do atual prefeito, de construir muros entre favelas e áreas verdes da cidade.

Seguem algumas das postagens, que reproduzem artigos e notas de jornais:

El País (Espanha) chama o muro da vergonha de "muro da miséria" e diz que divide o Rio!
"El muro de la miseria ya divide Río". "Once favelas son cercadas para contener su expansión y luchar contra la droga". (20/04)

Do artigo de Luiz Fernando Janot, urbanista, professor da UFRJ, no Globo de hoje:
"Na Idade Média a cidade se fechava para os perigos externos através de muralhas periféricas. Talvez essa tendência seja um prenúncio lamentável da construção de um apartheid social na cidade... Um grande muro periférico envolvendo as comunidades instaladas nos morros para conter sua expansão é uma proposta simplista e comprometedora visualmente, da própria paisagem que se quer ver preservada". (17/04)

G1. Representantes de cem associações de moradores do Rio de Janeiro se manifestaram ontem, quinta-feira, contra o projeto de instalação de muros em torno das favelas. A Defensoria Pública informou que pode tomar medidas para impedir a instalação das barreiras de concreto. (17/04)

Clovis Rossi - FSP:
O muro, aí como aqui. Saio do Brasil com a polêmica sobre o muro em torno de uma favela carioca comendo solta. Chego a Port of Spain, em Trinidad e Tobago, com a polêmica sobre o muro para esconder uma favela comendo solta. Ah, América Latina, quando se fecharão suas veias eternamente abertas, para citar o clássico de Eduardo Galeano? O "Miami Herald" visitou o muro e reproduziu ontem frase de um dos moradores de Beetham Gardens, a favela que está sendo escondida. (16/04)

Proposta de CAMUFLAR o Muro da Vergonha com vegetação (ler na coluna do Ancelmo, do Globo) é o reconhecimento do absurdo de se cercar com muros medievais, as favelas. Pior a emenda que o soneto. Viraria chacota. (16/04)

Ontem, o Caderno de Turismo de EL PAÍS teve o Rio como tema. Matéria positiva. Mas infelizmente a questão dos muros da vergonha foi realçada na matéria. Abaixo, trecho.
"Hay un punto de urgencia en ello: queda poco tiempo para conocer Río de Janeiro antes de que cambie definitivamente su aspecto, pues el gobierno regional ha comenzado a levantar muros que aíslan las favelas de las zonas más turísticas." (15/04)


Roberto DaMatta (coluna no Globo): "Um muro para deter o avanço da iniquidade social, não vai conseguir coisa alguma. Antes de realizar tal monumento à sacralização da desigualdade em escala estupidamente grandiosa, vale a pena pensar numa coisa óbvia. Todo muro tem dois lados. Do lado de lá, ele vai servir de trincheira,casamata e torre para os que se aproveitam da pobreza 'criminosamente' e não apenas pelo voto. Com o muro concretiza-se o que o Zuenir Ventura diagnosticou como uma cidade partida, que murada, será irremediavelmente repartida". (15/04)

O presidente da associação de moradores da Rocinha diz que o crescimento da Rocinha é vertical e o muro não trará benefícios. "A Rocinha hoje não está se expandido para a mata. O muro vai impedir que as crianças peguem fruta na mata e as donas de casa busquem água, enquanto a favela sofre com o problema de falta de água tratada". O governo do Rio de Janeiro licitou na semana passada a construção de 3,4 km de muros nas favelas da Rocinha, Pedra Branca e Chácara do Céu. A obra custará R$ 21 milhões. Na Rocinha, maior favela da zona sul, 415 famílias terão que ser removidas de suas casas durante a construção dos paredões de três metros de altura. A Rocinha, em São Conrado, receberá 2,8 km de muro. Segundo a Emop, 114 famílias serão transferidas para apartamentos construídos na própria comunidade e as outras 301 vão receber indenizações. Segundo o IPP-Prefeitura-Rio, a Rocinha cresceu 1,41%, de 1999 a 2008. (Trechos de matéria da FSP). (14/04)


Paira a dúvida se tanta insistência de Cesar Maia deve-se apenas ao fato de que a autoria do projeto seja de seus desafetos do PMDB, Cabral e Paes. Em sua mais de uma década no comando do município, Maia tornou-se conhecido pelo projeto Favela-Bairro, que poderia ser visto como um modelo de integração das comunidades à "cidade urbanizada", se não tivesse falhado em conter o crescimento dessas mesmas comunidades e em levar a civilidade e o controle do Estado esperados em qualquer núcleo urbano.

Murar, talvez, não seja a melhor ideia. A gritaria, entretanto, que se tem ouvido de parte da inteligentsia brasileira e internacional, ainda saudosa do Muro de Berlim - tanto que enxerga esse muro em qualquer outro que seja construído no mundo -, não resolve o problema. É preciso haver debate e, simplismente, tachar de facista a solução do muro não é propor uma alternativa.

Os estudos do Instituto Pereira Passos que mostram um avanço maior da classe-média do que das favelas sobre as matas cariocas não deixa de ser um exemplo de como números e porcentagens podem ser ilusórios, meros artifícios para manipulação. O baixo crescimento percentual da Rocinha, por exemplo, não significa que ela tenha derrubado pouca mata, em números absolutos. Além disso, muito do que foi tachado de classe-média encontra-se justamente às margens de algumas das comunidades "urbanizada" ou "bairrizadas" do Rio. Em algumas favelas da zona-sul, já não se pode ser pobre e favelado ao mesmo tempo. A especulação imobiliária - vide o caso do minhocão da Rocinha - só permite, hoje, a existência de uma classe-média, ainda que marginalizada e afrontada, nessas comunidades.

Para reflexão e como fomento ao debate, vale conferir reportagem
do Globo de 16 de abril, que mostra como algumas experiências de contenção de favelas com eco-limites funcionaram, de fato, preservando a mata e sem gerar o tão mal afamado apartheid social.

Publicado por Thyago Mathias